A Maconha no Brasil Antes da Proibição: o que os jornais do século XIX revelam

Por que a Cannabis foi criminalizada no Brasil? A resposta está nos jornais.

Muito antes da proibição, a planta já circulava nas páginas dos jornais brasileiros como remédio, como matéria-prima industrial, como hábito dos escravizados e, finalmente, como “perigo social”. É essa trajetória fascinante que Gustavo J. C. Maia analisa em A Maconha no Brasil Através da Imprensa: Cânhamo, Cannabis, Pango e Diamba nos Jornais Antes da Proibição (1808–1932), publicado pela Editora Vista Chinesa.

Mais de 1.500 registros históricos

O livro é resultado de uma pesquisa minuciosa na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, que permitiu catalogar mais de 1.500 registros sobre a Cannabis em nos meios de comunicação da época (jornais, revistas, almanaques, folhetins e relatórios oficiais), publicados entre 1808 e 1932. São mais de 150 publicações diferentes analisadas ao longo de mais de um século de imprensa nacional.

Esse levantamento desafia uma ideia consolidada na historiografia: a de que a maconha praticamente não aparecia nos jornais brasileiros antes de 1915. A pesquisa prova o contrário: a planta estava presente desde os primeiros anos da imprensa no país, sob nomes muito diferentes, para usos muito diferentes, e com avaliações completamente distintas a depender de quem a usava.

Gustavo J. C. Maia é criador e diretor do Cannabis Monitor Brasil e do podcast Maconhômetro. Ele também é historiador e realiza pesquisas para o Núcleo de Pesquisa em Psicoativos e Cultura (Psicocult), da Universidade Federal Fluminense (UFF), e ao Observatório da Cannabis, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Gustavo J. C. Maia é criador e diretor do Cannabis Monitor Brasil e do podcast Maconhômetro. Ele também é historiador e realiza pesquisas para o Núcleo de Pesquisa em Psicoativos e Cultura (Psicocult), da Universidade Federal Fluminense (UFF), e ao Observatório da Cannabis, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Quatro nomes para uma mesma planta

Gustavo Maia fez uma análise das quatro denominações pelas quais a Cannabis circulava na imprensa brasileira:

  • Cânhamo — a cannabis europeia, industrial, usada na fabricação de cordas, tecidos, velas náuticas e papel. Era exaltada como matéria-prima estratégica para a economia nacional.
  • Cannabis (ou Cannabis indica) — a cannabis medicinal, europeia e “cientificamente legitimada”. Tinturas, extratos e preparações à base da planta eram anunciados nos jornais para tratar dezenas de enfermidades, da cólera-morbus à epilepsia. Representada positivamente como conquista da medicina ocidental.
  • Pango — nome usado pelos negros escravizados no Sul do Brasil para a cannabis fumada como entorpecente. Associado às comunidades afro-brasileiras, aparecia nos jornais geralmente em contextos negativos ou como curiosidade etnográfica.
  • Diamba — o mesmo hábito de fumar cannabis, só que praticado pelos negros do Norte do país.

A conclusão é perturbadora e iluminadora ao mesmo tempo: era a mesma planta. O que mudava era quem a usava — e essa diferença determinou qual versão seria criminalizada.

DA ROSA, Lilian. Cultivo Do Cânha-
mo No Brasil. 7ª Conferência Internacional de
História Econômica e IX Encontro de Pós-gradua-
ção em História Econômica. 2018, p. 19
DA ROSA, Lilian. Cultivo Do Cânha-
mo No Brasil. 7ª Conferência Internacional de
História Econômica e IX Encontro de Pós-gradua-
ção em História Econômica. 2018, p. 19

O racismo como fundamento da proibição

Maia demonstra, com riqueza documental, que a imprensa brasileira do século XIX foi operada pelas elites brancas e europeizadas do país como ferramenta política. Suas representações sobre a maconha refletiam diretamente os preconceitos dessas elites em relação à população negra escravizada e suas práticas culturais.

O cânhamo europeu era uma planta nobre, estratégica, “dos músculos e asas das embarcações” que construíram o imperialismo moderno. A cannabis medicinal era ciência. Já o pango e a diamba eram degeneração, embrutecimento, ameaça à ordem social.

A proibição federal de 1932 não surgiu do nada. Ela foi o resultado de um longo processo de fabricação de consenso, conduzido em boa parte pelas páginas dos jornais.

Por que este livro importa hoje

O debate sobre a Cannabis no Brasil é frequentemente tratado como uma questão do presente de políticas de saúde pública, segurança, regulação. O que Gustavo Maia faz, ao reconstruir mais de um século de imprensa, é mostrar que esse debate tem raízes profundas e que elas são, em larga medida, raízes raciais.

Compreender como a proibição foi construída discursivamente quais interesses ela servia, quais populações ela visava, quais saberes ela silenciou é indispensável para qualquer discussão séria sobre políticas de drogas no Brasil hoje.

A Maconha no Brasil Através da Imprensa é, ao mesmo tempo, um trabalho rigoroso de história cultural, uma contribuição original à historiografia das drogas no Brasil e uma leitura essencial para quem quer entender as origens de um dos debates mais urgentes do país.

Cachimbo de fumar diamba
O Campo, 1931. Ed.3, p.68

Sobre o autor

Gustavo J. C. Maia é criador e diretor do Cannabis Monitor Brasil e do podcast Maconhômetro. Historiador, realiza pesquisas para o Núcleo de Pesquisa em Psicoativos e Cultura (Psicocult) da Universidade Federal Fluminense (UFF) e para o Observatório da Cannabis da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). O livro conta com prefácio do professor Marco Luiz Bretas, um dos mais respeitados historiadores da segurança pública no Brasil.

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